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  • Natal

    Darcy Fagundes

    Escutar e transcerver

  • O meu País

    Um país que crianças elimina;

    E não ouve o clamor dos esquecidos;

    Onde nunca os humildes são ouvidos;

    E uma elite sem Deus é que domina;

    Que permite um estupro em cada esquina;

    E a certeza da dúvida infeliz;

    Onde quem tem razão passa a servis;

    E maltratam o negro e a mulher;

    Pode ser o país de quem quiser;

    Mas não é, com certeza, o meu país.

    Um país onde as leis são descartáveis;

    Por ausência de códigos corretos;

    Com noventa milhões de analfabetos;

    E multidão maior de miseráveis;

    Um país onde os homens confiáveis não têm voz,

    Não têm vez,

    Nem diretriz;

    Mas corruptos têm voz,

    Têm vez,

    Têm bis,

    E o respaldo de um estímulo incomum;

    Pode ser o país de qualquer um;

    Mas não é, com certeza, o meu país.

    Um país que os seus índios discrimina;

    E a Ciência e a Arte não respeita;

    Um país que ainda morre de maleita, por atraso geral da Medicina;

    Um país onde a Escola não ensina;

    E o Hospital não dispõe de Raios X;

    Onde o povo da vila só é feliz;

    Quando tem água de chuva e luz de sol;

    Pode ser o país do futebol;

    Mas não é, com certeza, o meu país!

    Um país que é doente;

    Não se cura;

    Quer ficar sempre no terceiro mundo;

    Que do poço fatal chegou ao fundo;

    Sem saber emergir da noite escura;

    Um país que perdeu a compostura;

    Atendendo a políticos sutis;

    Que dividem o Brasil em mil brasis;

    Para melhor assaltar, de ponta a ponta;

    Pode ser um país de faz de conta;

    Mas não é, com certeza, o meu país!

    Um país que perdeu a identidade;

    Sepultou o idioma Português;

    Aprendeu a falar pornô e Inglês;

    Aderindo à global vulgaridade;

    Um país que não tem capacidade;

    De saber o que pensa e o que diz;

    E não sabe curar a cicatriz;

    Desse povo tão bom que vive mal;

    Pode ser o país do carnaval;

    Mas não é, com certeza, o meu país!

    Composição: Orlando Tejo, Livardo Alves, Gilvan Chaves

  • O tempo

    Jaime Caetano Braum

    O tempo vai repontando

    O meu destino pagão

    Vou tenteando o chimarrão

    Da madrugada clareando

    Enquanto escuto estralando

    O velho brasedo vivo

    Nesse ritual primitivo

    Sempre esperando, esperando…

    É a sina do tapejara

    Nós somos herdeiros dela

    Bombear a barra amarela

    Do dia quando se aclara

    Sentir que a mente dispara

    Nos rumos que o tempo traça

    Eu me tapo de fumaça

    E olho o tempo veterano

    Entra ano e passa ano

    Ele fica a gente passa

    Que viu o tempo passar

    Há muita gente que pensa

    Mas é grande a diferença

    Ele não sai do lugar

    A gente que vive a andar

    Como quem cumpre um ritual

    É o destino do mortal

    É o caminho dos mortais

    Andar e andar nada mais

    Contra o tempo, sempre igual.

    Tempo é alguém que permanece

    Misterioso impenetrável

    Num outro plano imutável

    Que o destino desconhece

    Por isso a gente envelhece

    Sem ver como envelheceu

    Quando sente aconteceu

    E depois de acontecido

    Fala de um tempo perdido

    Que a rigor nunca foi seu.

    Pensamento complicado

    Do índio que chimarreia

    Bombeando na volta e meia

    Do presente no passado

    Depois sigo ensimesmado

    Mateando sempre na espera

    O fim da estrada é a tapera

    O não se sabe do eterno

    Mas a esperança do inverno

    É a volta da primavera.

    Os sonhos são estações

    Em nossa mente de humanos

    Que muitas vezes profanos

    Buscamos compensações

    Na realidade as razões

    Onde encontramos saída

    Nessa carreira perdida

    Que contra o tempo corremos

    Já que, a rigor, não sabemos

    O que haverá além da vida.

    Dentro das filosofias

    Dos confúcios galponeiros

    Domadores, carreteiros

    Que escutei nas noites frias

    Acho que a fieira dos dias

    Não vale a pena contar

    E chego mesmo a pensar

    Olhando o brasedo perto

    Que a vida é um crédito aberto

    Que é preciso utilizar.

    Guardar dias pro futuro

    É sempre a grande tolice

    O juro é sempre a velhice

    E de que adiante este juro

    Se ao índio mais queixo duro

    O tempo amansa no assédio

    Gastar é o melhor remédio

    No repecho e na descida

    Porque na conta da vida

    Não adianta saldo médio!

    Composição: Jayme Caetano Braun, Lucio Yanel

  • Hello world!

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